03/04/2025

Em que pese muito tenha evoluído ao longo dos anos, o Brasil ainda ostenta índices de analfabetismo bastante elevados, deflagrando uma sistemática escassez de atenção às políticas públicas de Educação, sobretudo básica. De qualquer forma, os números do último censo do IBGE demonstraram um discreto recuo na taxa de analfabetismo, que oscilou de 6,1% em 2019 para 5,6 em 2022. Assim como nos levantamentos anteriores, também em 2022 os índices são maiores na região Nordeste (14,8% no PI, 14,4% em AL e 13,6 na PB) e menores no DF (1,9%), no RJ (2,1%) e em SP e SC (2,2%).

Esses números refletem as históricas desigualdades existentes no Brasil desde idos tempos. Esse país continental e repleto de riquezas naturais sempre teve – e ainda tem – um grande desafio no que diz respeito à inclusão de todos os brasileiros. E é exatamente nessa disparidade que florescem alguns costumes, tais como a comemoração do ABC, sobre o qual estamos abordando nesta matéria. Bastante comum no Nordeste e quase raro no centro-sul do Brasil, essa icônica festividade coroa, solenemente, a alfabetização das crianças.

Com direito a fotos produzidas e até anel no dedo, anualmente, as escolas formam diversos “doutores do abc”, como se escuta comumente em algumas regiões como o município de Branquinhas, no interior de Alagoas. O evento foi destaque no site da Prefeitura Municipal: “Novos 66 Doutores do ABC ganham festa de formatura”, o que demonstra a importância do momento, reverenciada até mesmo pelo poder público local. E, sinceramente, não acho uma comemoração desnecessária. Muito pelo contrário.

A Educação é a estrada certa e segura para o desenvolvimento de uma nação. Países que investiram em políticas educacionais sérias experimentaram resultados positivos em pouco tempo, sobretudo no empreendedorismo e crescimento sustentável. É a verdadeira fórmula secreta de superpotências como a Alemanha – que embora dentro da Europa teve que recomeçar do zero após a 2ª Guerra Mundial – ou o Japão e a Coréia do Sul. Países que não dispõem da quinta parte da riqueza natural do Brasil, mas que se encontram em estágio de desenvolvimento muito à frente.

Na famosa estátua acima, esculpida no Japão, a menina franzina tem peso bem maior do que o robusto rapaz. O que justifica a gangorra pender para a estudante são os livros que ela carrega, diferente dele que porta um aparelho celular. E é nesse tipo de filigrana que se observa o valor que um povo confere à Educação e à Cultura, destacando o caráter insubstituível dos livros na formação intelectual das crianças. Dessa forma, celebrar a alfabetização entendo até mais importante do que um pós-doutorado. Afinal, todo PhD já foi alfabetizado um dia, tendo percorrido o mesmo caminho, sob a dependência e tutoria do professor responsável pela aquisição da linguagem.

Por isso, no Brasil, as celebrações de formatura do ABC refletem a primeira etapa acadêmica do infante, dando-lhe incentivo para seguir adiante nos estudos por meio do reconhecimento do esforço dispendido para atingir aquele grau. Sem olvidar que, de todos os degraus acadêmicos, o mais transformador, de fato, é o da alfabetização. O conhecer das letras abre um imenso e incrível horizonte às crianças, que passam a ser inseridas em um universo outrora desconhecido.

Assim, celebrar o ABC é imprimir na memória afetiva das nossas crianças o reconhecimento da conquista do primeiro degrau na vida acadêmica de cada um deles. Mais do que isso é introjetar nas suas mentes o sistema retributivo no qual a conquista pende de esforço prévio, destacando a importância dos sacrifícios como elementos necessários para obtenção do êxito.